A consolidação orçamental produziu efeitos
distributivos significativos amentando a desigualdade, diminuindo a
parte dos rendimento do trabalho e aumentando o desemprego de longo
prazo, dizem quatro técnicos do Fundo Monetário Internacional (FMI) num
artigo de análise de 173 episódios de consolidação orçamental entre 1978
e 2009 em 17 países da OCDE, em que se inclui Portugal. O estudo não
abrange o período de ajustamentos iniciado após a crise das dívidas
soberanas na zona euro.
O estudo produziu três "sugestões" (como escrevem)
de correlação, a partir da evidência empírica dos ajustamentos
orçamentais, que, em média, naquela amostra analisada foram de 1% do
PIB, ainda que os episódios variassem entre 0,1% e 5% do PIB:
# a desigualdade, medida pelo índice de Gini,
aumentou 0,1 pontos percentuais no muito curto prazo, ou seja doze meses
depois, e 0,9 pontos percentuais a prazo, ou seja oito anos depois; os
efeitos são "duradouros";
# a parte dos rendimentos dos assalariados caiu 0,8
pontos percentuais, e, como padrão, tende a cair "mais rapidamente
depois da ocorrência de um episódio de consolidação"; o efeito negativo
sobre os rendimentos do trabalho é maior do que nos lucros e nos
rendimentos provenientes de rendas;
#o desemprego de longo prazo aumentou 0,5 pontos
percentuais no médio prazo; este aumento é preocupante pois implica o
risco de agravamento do desemprego como um problema estrutural; o
"desemprego de longo prazo ameaça a coesão social" e a democracia (faz
disparar as opiniões negativas sobre a eficácia da democracia e aumenta o
desejo por determinado tipo de lideres políticos antidemocráticos - rogue leader, dizem inclusive os autores quase a concluir).
Alesina não tem razão
Conclui, ainda, ao contrário do que se tem
divulgado em muitos outros estudos técnicos, que ajustamentos
orçamentais operados pela via dos cortes de despesa pública produzem,
"em média, efeitos distributivos muito maiores do que os ajustamentos
por via dos impostos". Naturalmente, os efeitos distributivos são
negativos, como se assinalam nas conclusões gerais.
Foram os trabalhos do professor Alberto Alesina que
difundiram a ideia de que consolidações por via fiscal (dos impostos)
seriam mais recessivas do que consolidações por via dos cortes de
despesa pública, sobretudo no médio prazo. O mesmo tipo de impacto
ocorreria no desemprego. Este artigo publicado pelo FMI contesta tal
conclusão: "Os resultados obtidos por este exercício sugerem que as
consolidações por via do corte na despesa pública tendem a ter efeitos
muito maiores". Em particular, aponta o estudo, o efeito de médio prazo
da consolidação orçamental na desigualdade de rendimentos é cerca de 1
ponto percentual para os casos de consolidação por via dos cortes e de
0,6 pontos percentuais para os casos via receitas de impostos.
Ainda, recentemente, o Expresso chamou a atenção para um artigo publicado por quatro técnicos do Banco de Portugal
, intitulado "Fiscal multipliers in a small euro area Economy: how big can they get in crisis times?
" (Working Papers, 11/2013, Banco de Portugal), em que se concluía que
os multiplicadores orçamentais (no seu efeito negativo) podem quase
duplicar em períodos de crise nas consolidações pelo lado da despesa e
aumentar entre 30% e 60% nas consolidações pelo lado da receita. Ou
seja, são mais gravosos via cortes
da despesa do que via receita fiscal.
O artigo da autoria de Laurence Ball, professor da Universidade Johns
Hopkins, nos Estados Unidos, e de Davide Furceri, Daniel Leigh e Prakash
Loungani, técnicos do FMI, foi publicado na semana passada na série de
Working Papers daquela instituição ("The Distributional Effects of Fiscal Consolidation
", WP 13/151, disponível no site do FMI em pdf).
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Já
vários estudos na última década haviam apontado para o facto de que os
ajustamentos orçamentais acabam por ficar "tipicamente associados com um
aumento de pobreza e de desigualdade nos rendimentos".
Análise do saldo primário é enganadora
O trabalho agora publicado pelo FMI quantifica para
um universo muito amplo de episódios e de amostra de países
desenvolvidos e recusa a abordagem que apenas foca a avaliação dos
programas de ajustamento nos resultados orçamentais positivos, quando os
houve, em particular no saldo primário ajustado pelos efeitos estimados
pelas flutuações cíclicas.
Dizem os autores que a abordagem convencional "tende a
escolher períodos associados com resultados de crescimento favoráveis,
durante os quais na realidade nenhumas medidas de ajustamento foram
tomadas" ou "tende, também, a omitir casos de ajustamento orçamental
associados com resultados desfavoráveis no crescimento". Em suma, a
abordagem que se baseia no saldo primário ajustado ciclicamente distorce
a análise "no sentido de minimizar os efeitos recessivos e de exagerar
os efeitos expansionistas".
Olhando para a realidade atual, o estudo aponta nas
conclusões que "consolidações orçamentais excessivamente apressadas
representam riscos para a recuperação económica" e que as medidas de
ajustamento devem ser bem pensadas e compensadas, com flexibilidade,
tendo em conta nomeadamente quando os resultados no crescimento
económico são mais "lentos" do que assumidos nos planos. Detalha algumas
recomendações.
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Fonte: expresso.sapo.pt
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